Por que “Dom Casmurro” ainda divide opinião 140 anos depois

Bentinho é confiável ou não? A pergunta que continua rendendo bate-boca.

Todo mundo que já discutiu livro numa roda de amigos, num grupo de WhatsApp ou nos comentários de uma rede social já esbarrou nessa treta: Capitu traiu Bentinho ou não? E o mais engraçado é que essa discussão não morre — pelo contrário, ela só cresce. Machado de Assis escreveu “Dom Casmurro” lá em 1899, e mais de um século depois a gente ainda está aqui, brigando sobre os “olhos de ressaca” dela.

Se você nunca leu, o resumo é o seguinte: Bento Santiago, já velho e apelidado de “Dom Casmurro” pelos vizinhos, senta pra escrever suas memórias. Ele conta a história de amor com Capitu, sua vizinha e amiga de infância, desde os tempos em que os dois planejavam um jeito de escapar do seminário até o casamento dos dois, anos depois. Só que, no meio do caminho, entra Escobar — o melhor amigo de Bentinho — e um filho, Ezequiel, que aos olhos do narrador começa a ficar cada vez mais parecido com o amigo morto. E é aí que tudo desanda.

Bentinho conclui que foi traído. Ele mesmo conta essa conclusão como um fato consumado. O problema — e é aqui que mora a genialidade do livro — é que a gente só conhece Capitu através dos olhos dele. Não existe um capítulo em que ela se defenda, não existe uma versão alternativa da história. Tudo o que sabemos sobre a suposta traição vem de um homem magoado, ciumento, e que está escrevendo décadas depois dos fatos, já reconstruindo tudo à luz da própria dor.

Por muito tempo — praticamente as primeiras seis décadas depois da publicação — quase ninguém questionou essa versão. Os leitores da época, formados numa sociedade bem mais rígida com relação à mulher, simplesmente aceitavam: Capitu traiu, ponto final. Foi só a partir dos anos 1960, com a pesquisadora americana Helen Caldwell, que alguém sugeriu em voz alta o que hoje parece óbvio pra muita gente: e se Capitu for inocente? E se o livro inteiro for, na verdade, o relato de um homem consumido pelo próprio ciúme, inventando provas onde só havia coincidência?

É esse tipo de fenda proposital que faz “Dom Casmurro” ser estudado até hoje. Machado não entrega respostas prontas — ele constrói um narrador que parece sincero, que parece racional, mas que aos poucos vai revelando suas próprias fraturas. Cabe ao leitor decidir em quem confiar. E dependendo de quando você lê o livro, e de quem você é enquanto lê, a resposta muda.

Isso é o que torna esse clássico brasileiro tão vivo: ele não é um enigma que se resolve e se guarda na estante. É uma conversa que continua, geração após geração, porque a pergunta central — até que ponto podemos confiar em quem conta a própria história? — nunca deixa de ser atual. Se você ainda não leu, prepare-se pra terminar o livro com mais dúvidas do que quando começou. E é exatamente por isso que vale a pena.


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