Autoras que sumiram das listas de leitura — e não deveriam.
Pergunta pra qualquer pessoa quem são os grandes nomes da literatura brasileira e a resposta vai vir rápido: Machado de Assis, José de Alencar, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos. Homens, quase sempre. Não porque as mulheres não escreveram — escreveram, e muito, e bem cedo —, mas porque boa parte delas foi sistematicamente deixada de fora das listas escolares, das antologias e, por consequência, da nossa memória coletiva. Aqui vão cinco nomes que merecem voltar pra roda.
1. Maria Firmina dos Reis
Considerada a primeira romancista brasileira, Maria Firmina dos Reis publicou “Úrsula” em 1859 — um romance abolicionista escrito por uma mulher negra, décadas antes da abolição, numa época em que isso era praticamente impensável. O livro dá voz a personagens escravizados com uma humanidade que a literatura da época raramente oferecia. Se existe um nome que deveria estar ao lado dos “clássicos fundadores” do romance brasileiro, é esse.
2. Júlia Lopes de Almeida
Uma das escritoras mais lidas e respeitadas do Brasil na virada do século XIX para o XX — best-seller da própria época, negociava diretamente com editoras europeias — Júlia Lopes de Almeida ajudou a arquitetar a fundação da Academia Brasileira de Letras. E, mesmo assim, foi excluída da instituição que ela mesma ajudou a planejar, simplesmente por ser mulher. Escreveu romances, contos e literatura infantil, sempre com um olhar atento pra vida doméstica e os limites impostos às mulheres da época.
3. Nísia Floresta
Antes de qualquer debate formal sobre direitos das mulheres no Brasil, já havia Nísia Floresta escrevendo sobre o assunto — seu livro “Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens”, do início do século XIX, é um dos primeiros textos feministas produzidos no país. Ela defendia o direito das mulheres à educação e ao trabalho numa época em que isso soava quase escandaloso.
4. Narcisa Amália
A primeira jornalista profissional do Brasil também foi poeta, e usou as duas frentes pra defender causas que incomodavam bastante gente: o fim da escravidão e mais direitos para as mulheres. Seus poemas circulam pouco hoje, mas o papel dela como pioneira — numa profissão majoritariamente masculina, num século XIX pouco receptivo a isso — já garantiria um capítulo à parte em qualquer história da nossa literatura.
5. Gilka Machado
Poeta ousada pra qualquer época, Gilka Machado escreveu sobre desejo e erotismo feminino num Brasil do início do século XX que mal sabia lidar com o assunto vindo de uma mulher. Livros como “Cristais Partidos” e “Mulher Nua” causaram escândalo na época — e é justamente por isso que ela foi, durante décadas, empurrada pras margens do cânone. Só reconhecida oficialmente décadas depois, quando recebeu o Prêmio Machado de Assis.
Nenhuma dessas autoras é difícil de gostar. O problema nunca foi a qualidade do que escreveram — foi quem decidiu, ao longo do tempo, o que merecia ficar na lista de leitura obrigatória. Trazer esses nomes de volta não é só resgatar história: é perceber que a nossa ideia de “clássico brasileiro” sempre foi menor do que deveria.
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